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Rodas culturais e fuxicos
Outro dia, estive num churrasco da família, numa bela e equipada casa na praia de Itacoatiara, na cidade de Niterói ( RJ ). No requinte dos moveis modernos, lá estavam nas mesas que serviam o almoço, as toalhas de chita: coloridas e simples, dando ao espaço um tom cultural e aconchegante. Espalhados pela casa, um detalhe e outro ornado com fuxicos.
O fuxico, de idade secular, tem a sua criação atribuída (cogitada) aos escravos africanos, popularizado dentro do universo do patchwork no início do século XX. Um pequeno círculo com as extremidades alinhavadas e franzidas inspiram a criação de pequenos enfeites e adereços, até a composição de peças maiores como colchas.O fuxico é um artesanato que está presente em todas as regiões do Brasil. O termo em português é sinônimo de "fofoca" (cochicho) e, segundo o folclore brasileiro, recebeu este nome porque as mulheres se reuniam para costurar e cochichar sobre a vida alheia. Fuxico sempre esteve associado à classe social de baixa renda, e ainda as comunidades rurais. De uma década para cá, com o surgimento da customização e a introdução de novas técnicas artesanais na moda e na decoração é que ele começou a ser mais valorizado. Hoje, fuxicar é arte, beleza, graça. Fuxicar está na moda.
A tecelagem e o artesanato já foram proibidos no Brasil, cem anos antes da organização do primeiro setor administrativo de cultura no Estado do Rio de Janeiro, o Departamento Cultural, na então Secretaria de Estado de Educação e Cultura, em 1975, quando se instalou o INEPAC e suas divisões internas. O chitão, o brocado, a chita e o fuxico, tiveram sua produção caseira impedidas de funcionar por imposição do governo português, pressionados pelas indústria têxtil inglesa, em fins do século XIX, noventa anos antes da criação do Ministério da Cultura. Hoje são atividades de destaque no pacote da cultura e da economia fluminense e brasileira: tempo e história. Cultura e desenvolvimento.
Os assuntos sobre a cultura, as políticas culturais, pipocam por todos os lados: fóruns, seminários, congressos, conferências municipais, intermunicipais, estaduais, organização de conselhos de cultura, fundos de cultura, audiências públicas nas casas legislativas, projetos de leis no Congresso, debate do orçamento mínimo para cultura, participação e protagonismo da sociedade civil, através de entidades e organizações diversas, compondo novos e antigos pontos de cultura no mapa cultural, projetos e editais de calendários contínuos, pautas recentes de regulamentação da cultura, o RECULTURA, no trato do negócio e economia formal dos números e notas fiscais que envolvem a “industria” da cultura, indicadores culturais, informes e boletins constantes, numa soma inédita que impõe nova agenda para governantes e agentes culturais: é o sistema nacional de cultura, é a cultura com espaço novo, mais próximo da sua importância estratégica para o desenvolvimento, além dos calendários festivos onde é destaque pela atração de suas variadas linguagens artísticas.
De modo particular, os agentes culturais tem uma “proclamação” a ser efetivada nestes tantos assuntos, onde sua própria capacitação e formação estão em cheque: do animador cultural na década de 80, do produtor cultural da década de 90, a recente condição de gestor cultural dos tempos atuais, abraçar a pauta da cultura nos gabinetes e principalmente fora deles, na sociedade de modo geral, é uma celebração republicana em tempos de cidadania cultural.
Uma colcha de fuxico cultural: assuntos e assuntos sobre políticas culturais, sobre cultura, bordada numa roda integrando “outros” assuntos, aprendendo e costurando artesanalmente, tempos novos no mapa dos estados e país. Muitas rodas municipais de cultura, com a circularidade das informações, indicativos e ações em conjunto, considerando que o Brasil começa pelas cidades, como São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro.
* Cleise Campos
* Diretora COMCULTURA RJ www.comcultura.com.br
* Atriz Bonequeira e Mestre em História Social e Política do Brasil